A última carta de natal
Um conto de mistério, drama e romance de época, com toques de terror psicológico
Na véspera de Natal de 1889, uma nevasca cobria os bosques que cercavam o antigo Castelo de Whitmoor, no interior da Inglaterra.
A construção de pedra cinzenta, silenciosa e imponente, parecia suspensa no tempo. Dentro, as lareiras crepitavam, mas nem mesmo o fogo afastava o frio que parecia vir de dentro das paredes.
Na ala leste, duas crianças, Beatrice e Edmund, brincavam pelos corredores empoeirados. A mãe havia falecido no inverno passado, e o pai, o conde Alaric de Whitmoor, permanecia recluso desde então.
A única presença constante era a camareira, Margareth, que cuidava dos pequenos como se fossem seus filhos. Ela sempre os alertava para não entrarem na biblioteca velha. “Ali mora o que não deve ser perturbado”, dizia em voz baixa, os olhos escuros cheios de receio.
Mas, naquela noite de Natal, algo os atraiu para lá.
“Edmund, ouça… alguém está chorando”, sussurrou Beatrice, puxando o irmão pela mão. A porta da biblioteca estava entreaberta. Um vento gelado atravessou o corredor quando eles empurraram a porta e viram uma mulher de branco, debruçada sobre uma escrivaninha.
A figura virou-se. Era pálida, bela e triste. Um fantasma. Antes que as crianças corressem, ela estendeu uma carta antiga, selada com cera vermelha.
“Entreguem isto ao conde. Digam que Eleanor o perdoa”, sussurrou, antes de desaparecer no ar.
Margareth, ao saber do ocorrido, empalideceu.
“Eleanor... a primeira esposa do conde. Ela desapareceu na véspera de Natal, vinte anos atrás. Dizem que ele a matou por ciúmes… mas nunca encontraram o corpo. Essa carta pode conter os segredos que selaram seu destino.”
O conde Alaric, ao receber a carta, trancou-se no quarto por dois dias. Ninguém ousou perturbá-lo.
No terceiro dia, convocou Margareth.
“Leve as crianças para Londres. Este castelo não é mais seguro.”
Mas a camareira, determinada, confrontou-o. Queria saber a verdade. Ele a olhou nos olhos, cansado e abatido.
“Ela era tudo para mim. Eleanor. Amávamos como se o mundo fosse acabar a qualquer momento. Mas havia algo sombrio nela... ela ouvia vozes, escrevia mensagens para o que chamava de ‘espírito da floresta’. No fim, enlouqueceu.”
O conde entregou a carta a Margareth. Ela leu, em silêncio:
“Meu amor, se estás lendo isto, é porque meu corpo jamais foi encontrado. Não fui morta por ti, tampouco por mãos humanas. Fui levada pela escuridão que habita este castelo. Proteja as crianças. Nunca deixe que o passado as toque.
Ainda amo você. Sempre amarei.
Eleanor.”
Margareth chorou. Era uma história de amor e dor, um romance psicológico que ultrapassava os limites da sanidade. E agora, parecia querer repetir-se.
Na noite seguinte, Edmund desapareceu.
As buscas se espalharam pelos salões, pelas torres, pelos subterrâneos. Beatrice dizia ouvir a voz da dama de branco, chamando o irmão pelo nome.
Foi Margareth quem encontrou o menino, adormecido ao lado de um espelho antigo no salão dos retratos. O vidro estava embaçado, mas no reflexo via-se claramente a imagem de Eleanor segurando a mão do menino, com um olhar doce.
A partir daquela noite, o terror silencioso voltou a habitar Whitmoor.
As portas batiam sozinhas. As velas se apagavam sem vento. E a neve do lado de fora formava pegadas que entravam no castelo, mas nunca saíam.
Em uma última tentativa de entender, Margareth buscou os diários antigos de Eleanor.
Lá encontrou relatos perturbadores: Eleanor acreditava que o castelo era uma ponte entre o mundo dos vivos e dos mortos. Dizia que, em noites de Natal, o véu entre os mundos se enfraquecia. Foi então que percebeu: Eleanor não estava presa. Estava protegendo alguém — ou algo.
Nos escritos finais, a revelação: Eleanor havia tido um filho antes do casamento com o conde. Uma criança escondida. Um pacto feito para salvá-lo. E o espelho era o portal.
Na noite de Natal seguinte, Margareth levou Beatrice e Edmund ao espelho.
“Se Eleanor busca algo, talvez seja este filho que deixou para trás. Edmund tem os olhos dela. Talvez ele seja a chave para libertá-la.”
As crianças, corajosas, tocaram o espelho. O vidro estremeceu. E Eleanor surgiu, sorrindo, com lágrimas nos olhos.
“Obrigada”, sussurrou. E então, pela primeira vez em vinte anos, o castelo ficou em paz.
O conde vendeu Whitmoor e mudou-se para o sul com Margareth e os pequenos.
Nunca mais se falou da carta, nem da dama de branco. Mas toda véspera de Natal, ele acendia uma vela no jardim, olhava para o norte e murmurava:
“Eleanor, onde quer que esteja… ainda te amo.”

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